Suplementos há muitos.
Estão disponíveis não só em farmácias, mas também em lojas de produtos dietéticos e até em supermercados. Ao contrário dos medicamentos, os suplementos alimentares são regulados, em Portugal, pela Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV). Embora tenham de cumprir normas rigorosas definidas pela União Europeia, a sua venda livre e a ampla disseminação de informação nem sempre sustentada por evidência científica e frequentemente baseada em alegações simplistas incentivam o seu consumo, muitas vezes sem indicação clínica.
Na tentativa de melhorar sintomas, é natural considerar a utilização de produtos que prometem benefícios para o funcionamento intestinal. Mas será mesmo assim?
Porque (não) suplementar?
A utilização de suplementos deve ter uma indicação clara e um objetivo bem definido, seja pela identificação de uma carência, seja pela evidência de que determinados componentes podem beneficiar um sintoma ou uma patologia. Importa também reconhecer que nem todos os produtos são equivalentes, já que fatores como a dosagem, os ingredientes, a posologia, o processo de fabrico e a evidência científica que os suporta fazem diferença.
Os suplementos alimentares não estão isentos de efeitos secundários, muitos deles ao nível gastrointestinal. Por exemplo, o ferro pode causar obstipação, enquanto o magnésio, tal como outros eletrólitos, como o potássio em doses mais elevadas, pode ter o efeito oposto e provocar diarreia. Algumas formulações incluem cafeína que, dependendo da dose, pode alterar o trânsito intestinal. Há também quem relate refluxo e desconforto gastrointestinal associados ao zinco.
Possíveis interações
Ao contrário dos medicamentos, cujas interações e reações adversas contam com sistemas de monitorização clínica contínua, muitos suplementos podem interagir com fármacos em utilização, embora tais interações nem sempre estejam totalmente documentadas. Além disso, a combinação de vários produtos pode resultar na inibição ou potenciação dos seus efeitos, o que nem sempre é desejável.
O caso da fibra
A fibra é um nutriente essencial e, possivelmente, um dos mais relevantes para o bom funcionamento intestinal. No entanto, existem diferentes tipos de fibra, com propriedades distintas. Um dos principais desafios na sua suplementação, para além da escolha adequada, prende-se com a dose e com a sua fermentabilidade. Fibras altamente fermentáveis, como a inulina, os GOS e os FOS, podem agravar sintomas como a distensão abdominal e o desconforto gastrointestinal.
Por último…
Por fim, importa lembrar que existem muitos compostos cujo teor em FODMAPs é desconhecido, o que também se aplica a suplementos que incluem vários extratos naturais. Para além disso, apesar de poderem ser úteis em determinados contextos, é fundamental que a sua utilização seja acompanhada por um profissional de saúde, de forma a maximizar os benefícios e reduzir os riscos.
Referências
- Bloor, S., Schutte, R., & Hobson, A., 2021. Oral Iron Supplementation—Gastrointestinal Side Effects and the Impact on the Gut Microbiota. Microbiology Research. https://doi.org/10.3390/microbiolres12020033.
- Ronis, M., Pedersen, K., & Watt, J., 2018. Adverse Effects of Nutraceuticals and Dietary Supplements.. Annual review of pharmacology and toxicology, 58, pp. 583-601 . https://doi.org/10.1146/annurev-pharmtox-010617-052844.
- Bartsch, B., Then, C., Harriss, E., Kartsonaki, C., & Kiltie, A., 2020. Systematic review and meta-analysis of interventions with dietary supplements, including pre-, pro- and synbiotics, to reduce acute and late gastrointestinal side effects in patients undergoing pelvic radiotherapy. medRxiv. https://doi.org/10.1101/2020.08.21.20178814.
