Ir além do que come: COMO come
Além daquilo que come, que é frequentemente o foco nas recomendações na Síndrome do Intestino Irritável (SII) — e com razão — nem sempre é abordada a importância de pensarmos e ajustarmos a forma como comemos.
Já parou para refletir no contexto em que faz algumas das suas refeições? Em deslocação, em pé e com tempo limitado, por vezes sentado mas sob pressão, ou até em situações em que uma discussão surge e afeta a sua vontade de terminar a refeição. Em muitos casos, as refeições acontecem sob um estado significativo de stress.
De forma simplificada, o sistema nervoso autónomo é uma parte do sistema nervoso responsável por funções involuntárias do corpo. Dentro dele, distinguem-se dois ramos principais: o sistema nervoso simpático e o sistema nervoso parassimpático. O sistema nervoso simpático está associado ao estado de alerta, enquanto o sistema nervoso parassimpático promove um estado de relaxamento. A digestão ocorre de forma mais eficiente quando há ativação predominante do sistema parassimpático.
Estes dois sistemas não atuam, normalmente, em simultâneo na mesma intensidade. Em condições ideais, existe um equilíbrio dinâmico entre ambos. No entanto, num contexto de stress frequente — que muitas vezes não se limita ao momento da refeição — observa-se uma maior ativação do sistema simpático. Isto pode levar à diminuição da secreção de enzimas digestivas, a uma digestão menos eficiente e a alterações na motilidade intestinal, que se torna mais irregular.
“Eu como bem, mas continuo com sintomas.”
Embora a alimentação seja um fator essencial, se não olharmos também para a forma como comemos, podemos perder uma peça importante na compreensão dos sintomas.
Comer rapidamente e sem mastigar adequadamente aumenta a carga sobre o sistema digestivo. A digestão começa na boca, através da mastigação e da ação de enzimas presentes na saliva. Quando este processo é apressado, o estômago e o intestino têm de compensar, o que pode contribuir para sintomas como inchaço, gases e desconforto abdominal.
Outro fator relevante é a atenção durante a refeição. Comer distraído — seja com o telemóvel, televisão ou trabalho — reduz a perceção dos sinais internos do corpo. Isto pode levar a comer mais rapidamente, a não reconhecer sinais de saciedade ou até a ignorar sinais precoces de desconforto.
Como melhorar? Estratégias práticas
- Fazer uma pausa antes de comer. Alguns minutos de respiração lenta e profunda podem ajudar a ativar o sistema nervoso parassimpático.
- Comer mais devagar, pois permite uma melhor mastigação, facilita a digestão e dá tempo ao corpo para reconhecer sinais de saciedade.
- Criar alguma consistência nos horários, mantendo sempre que possível alguma regularidade alimentar, já que o intestino funciona melhor com previsibilidade.
- Reduzir distrações durante as refeições, evitando ecrãs, trabalho ou situações de elevada carga emocional. Mesmo que não seja possível em todas as refeições, aplicar este princípio em pelo menos uma por dia pode ter impacto.
- Verificar a postura, procurando comer sentado e com o corpo relaxado, o que facilita o processo digestivo e influencia positivamente a resposta do sistema nervoso.
A digestão não é apenas um processo mecânico — é altamente sensível ao estado do sistema nervoso.
Em resumo, para além de escolher o que come, vale a pena prestar atenção a como come.
Referências
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