Será o efeito nocebo?
Provavelmente já ouviu falar no efeito placebo, mas raramente se fala do seu oposto: o efeito nocebo. No fundo, refere-se às expectativas negativas relativamente a algo ou a uma intervenção, que podem resultar no aparecimento ou agravamento de sintomas reais. A dor é real, não é imaginada, mas pode ser amplificada pela antecipação do mal-estar.
Por exemplo, quando acredita que determinado alimento tem impacto nos seus hábitos intestinais e que, quase imediatamente após o ingerir, terá de correr para a casa de banho. Estas crenças surgem, por vezes, por desinformação, seja porque alguém lhe disse, por exemplo, que o glúten faz mal (o que não é necessariamente verdade), ou porque viu nas redes sociais que determinado alimento é prejudicial.
Não só por este efeito, mas também porque os sintomas intestinais têm um grande impacto no dia a dia, pode surgir uma tentativa constante de controlar ou prever o que os desencadeia. Nesse sentido, torna-se hipervigilante, como se precisasse de garantir que não está prestes a desenvolver sintomas ou que não terá de ir à casa de banho. Qualquer movimento intestinal, uma distensão mínima ou um ruído pode desencadear uma reação ansiosa, ainda que compreensível.
Esta atenção constante, por vezes com um carácter quase obsessivo, também influencia a forma como o cérebro processa a informação e interpreta estes sinais, amplificando-os como forma de antecipar e prevenir o desconforto. Cria-se, assim, um ciclo vicioso, sendo que a ansiedade persistente é, por si só, um fator que pode contribuir para o aparecimento de sintomas, como a dor abdominal.
Como quebrar o ciclo?
- Compreenda o que se passa consigo e procure tranquilização junto de um profissional de saúde: partilhe os seus receios, aquilo que imagina que possa acontecer e procure entender como e porquê surgem os seus sintomas.
- Exposição gradual e autorregulação: tal como pode desenvolver uma reação perante a ideia de que algo é prejudicial, também pode treinar a mente para se tranquilizar, aceitando que pode ter sintomas, mas que é capaz de os gerir.
- Psicoterapia: é importante desenvolver estratégias para lidar com pensamentos intrusivos, mas também compreender que função têm estas preocupações. Por vezes, o foco nos sintomas físicos pode servir como distração de emoções ou angústias mais difíceis de enfrentar. Trata-se de um mecanismo de defesa válido, mas que deve ser compreendido com a ajuda de um terapeuta, de forma a encontrar estratégias mais adaptativas.
É um processo
O cérebro é um órgão poderoso e pode ser, simultaneamente, um aliado e um adversário. No entanto, é neuroplástico, o que significa que a forma como pensa e sente pode ser modificada, muitas vezes com apoio profissional. Isso traduz-se, frequentemente, num melhor autoconhecimento e numa melhoria global da sintomatologia.
Não se esqueça: por vezes, o corpo expressa aquilo a que ainda não teve acesso, o que não se permite sentir ou para o qual ainda não encontrou espaço para pensar. Permita-se fazê-lo e procure compreender o que sente, sem que essa procura se transforme num problema em si, em vez de fazer parte da solução.
Referências
- Li, R., Chen, F., He, X., Feng, Y., Pei, Q., Wang, D., Liu, X., Liu, J., Hou, X., & Bai, T., 2022. Nocebo response intensity and influencing factors in the randomized clinical trials of irritable bowel syndrome: A systematic review and meta-analysis. Frontiers in Medicine, 9. https://doi.org/10.3389/fmed.2022.1018713.
- Nasiri-Dehsorkhi, H., Vaziri, S., Esmaillzadeh, A., & Adibi, P., 2023. Psychological distress, perceived stress and nocebo effect (multifood adverse reaction) in irritable bowel syndrome patients. Journal of Education and Health Promotion, 12. https://doi.org/10.4103/jehp.jehp_221_23.
