Mas eu não tenho depressão e não preciso de antidepressivos!
Em primeiro lugar, e retirando a SII da equação, é um facto que a doença mental e a toma de fármacos para o seu tratamento continuam a ser alvo de um enorme estigma. A resistência ao tratamento surge, muitas vezes, de ideias preconcebidas em relação à medicação e, se isto acontece em quadros de doença psiquiátrica, também acontece quando estes fármacos são utilizados para tratar os sintomas da SII.
É ainda comum que este tema não seja devidamente discutido em consulta quando a medicação é sugerida, levando muitas pessoas a assumir automaticamente que o médico está a afirmar que os sintomas têm origem emocional e podem ter. No entanto, a ação destes fármacos vai muito além disso.
Além disso, pode surgir um sentimento de desvalorização dos sintomas, quase como se fossem uma invenção. Mas não são. Os seus sintomas são reais.
Porque são sugeridos estes fármacos?
Neste contexto, o termo “antidepressivo” tem vindo a ser cada vez menos utilizado, não necessariamente pelo estigma, mas porque essa não é a principal função destes medicamentos neste caso. O termo mais adequado é neuromoduladores. São fármacos utilizados em doses específicas que atuam no intestino e podem modular os sintomas intestinais.
Como? Porque, sendo a SII um distúrbio do eixo intestino-cérebro, estes fármacos desempenham um papel importante na modulação da comunicação entre estes dois órgãos, que, nestes casos, pode estar alterada e justificar a sintomatologia.
O intestino tem quase um “sistema nervoso próprio”: o sistema nervoso entérico, muitas vezes apelidado de segundo cérebro. Contém milhões de neurónios (as células do sistema nervoso) e necessita, de forma simplificada, dos mesmos neurotransmissores para funcionar. Neste sentido, estes fármacos podem ter um impacto significativo.
Hipersensibilidade visceral
Trata-se de um fenómeno presente nos distúrbios do eixo intestino-cérebro que influencia a forma como o cérebro interpreta a dor. Significa que movimentos peristálticos normais e necessários para o funcionamento do intestino e o próprio processo digestivo, apesar de fisiológicos, podem ser sentidos como dor, que surge amplificada.
Quebrando o estigma
- Os seus sintomas e a sua dor são reais. A toma destes fármacos atua nos mecanismos que estão na sua base e não significa que sejam fruto da sua imaginação.
- Não são necessariamente causadores de dependência e, muitas vezes, são utilizados em doses baixas. Ainda assim, deve sempre discutir as suas preocupações com o seu médico.
- Estes medicamentos têm um efeito cumulativo: não atuam de forma imediata, pelo que os benefícios podem demorar algum tempo a surgir.
Por último…
Seja um agente ativo na sua terapêutica: faça perguntas, explore alternativas com o seu médico e não interrompa a medicação sem falar previamente com o profissional de saúde que o acompanha.
Referências
- Hanna-Jairala, I., & Drossman, D., 2024. Central Neuromodulators in Irritable Bowel Syndrome: Why, How, and When. The American Journal of Gastroenterology, 119, pp. 1272 – 1284. https://doi.org/10.14309/ajg.0000000000002800.
- Stănculete, F., Dumitrascu, D., & Drossman, D., 2021. Neuromodulators in the Brain-Gut Axis: their Role in the Therapy of the Irritable Bowel Syndrome.. Journal of gastrointestinal and liver diseases : JGLD. https://doi.org/10.15403/jgld-4090.
- Aljeradat, B., Kumar, D., Abdulmuizz, S., Kundu, M., Almealawy, Y., Batarseh, D., Atallah, O., Ennabe, M., Alsarafandi, M., Alan, A., & Weinand, M., 2024. Neuromodulation and the Gut–Brain Axis: Therapeutic Mechanisms and Implications for Gastrointestinal and Neurological Disorders. Pathophysiology, 31, pp. 244 – 268. https://doi.org/10.3390/pathophysiology31020019.
- Wang, K., Alam, M., Lan, X., Li, F., & Chen, J., 2025. Efficacy and mechanisms of neuromodulation in the treatment of irritable bowel syndrome. Bioelectronic Medicine, 11. https://doi.org/10.1186/s42234-025-00186-5.
