Que impacto tem a sua SII na sua relação com a comida?

Que impacto tem a sua SII na sua relação com a comida?

Talvez ainda não tenha colocado essa questão, até porque, por vezes, a procura por melhorar os seus sintomas que, por si só, têm tanto impacto na sua qualidade de vida faz com que só mais tarde se aperceba do eventual efeito na sua relação com a comida: o medo de comer certos alimentos, rejeitar convites para almoços e jantares, sentir-se privado de comer algo de que gosta ou aperceber-se de que não tem controlo sobre os seus sintomas, pois “qualquer coisa que coma causa desconforto”.

O facto de sabermos que esta é uma realidade comum não significa que a devamos ignorar. Tendencialmente, procuramos atuar naquilo que pensamos conseguir controlar e o que comemos é uma dessas áreas. Acreditamos que, ao alterar a nossa alimentação, podemos sentir melhorias significativas, o que não é falso. Mas a que custo?

Por muito que tentemos, é difícil controlar totalmente o que comemos, até porque falamos de uma necessidade básica e fundamental. Além disso, é algo que varia: há dias em que temos mais fome do que outros e outros em que nos apetece comer alimentos que habitualmente nem desejamos.

 

Antes de qualquer restrição, pense duas vezes. 

Uma restrição alimentar deve ser devidamente justificada, comer é uma forma de prazer e de conexão com os outros. Se tiver de retirar algo da sua alimentação, essa decisão deve ser ponderada. Importa perceber se essa alteração terá potencial para melhorar a sua sintomatologia ou se, em alternativa, poderá apenas reduzir a quantidade ou explorar opções com menor impacto.

Além disso, aquilo que pensa ser um problema, muitas vezes sugerido por amigos ou por informação que encontra na internet, pode não o ser. Neste contexto, um diário alimentar e de sintomas pode ajudar a estabelecer as suas próprias associações.

 

O fruto proibido é o mais apetecido  

A ideia de que não pode comer determinado alimento é, muitas vezes, um incentivo para o procurar, mesmo que não faça parte das suas preferências. Perante a oportunidade de consumir algo que habitualmente evita, é provável que o faça em maior quantidade, como resposta à restrição.

Este comportamento pode impactar a sua sintomatologia, seja pela quantidade ingerida, o que é perfeitamente compreensível, seja pelo tipo de alimentos consumidos, aos quais pode não estar tão habituado e, por isso, não tolerar tão bem.

 

Dieta baixa em FODMAPs e comportamento alimentar  

A dieta baixa em FODMAPs, que segue um protocolo bem estabelecido, é contraindicada em pessoas com perturbações do comportamento alimentar e não é indicada em indivíduos com histórico destas condições, devido ao seu caráter restritivo.

No entanto, o facto de nunca ter tido um problema deste tipo não significa que esteja livre de risco. Um erro comum é permanecer num estado de restrição prolongada, no qual se desenvolvem medos alimentares e uma grande dificuldade em consumir alimentos fora da lista de alimentos “permitidos”.

Por isso, o acompanhamento por um nutricionista é fundamental, não só para avaliar se esta é a melhor abordagem para si, mas também para garantir apoio ao longo de todo o processo e evitar o desenvolvimento de um padrão alimentar restritivo crónico.

 

Referências

  1. Sultan, N., Foyster, M., Tonkovic, M., Noon, D., BurtonMurray, H., Biesiekierski, J., & Tuck, C., 2024. Presence and characteristics of disordered eating and orthorexia in irritable bowel syndrome. Neurogastroenterology and motility, 36, pp. e14797 – e14797. https://doi.org/10.1111/nmo.14797
  2. Jia, W., Liang, H., Wang, L., Sun, M., Xie, X., Gao, J., Li, L., Tang, X., & , Y., 2022. Associations between Abnormal Eating Styles and Irritable Bowel Syndrome: A Cross-Sectional Study among Medical School Students. Nutrients, 14. https://doi.org/10.3390/nu14142828
  3. Schaper, S., & Stengel, A., 2021. Emotional stress responsivity of patients with IBS – a systematic review.. Journal of psychosomatic research, 153, pp. 110694 . https://doi.org/10.1016/j.jpsychores.2021.110694